domingo, novembro 27, 2005

“Vamos ser a horta da Europa”

"O Governo está a estudar um projecto para a costa alentejana que prevê uma megaprodução em estufas de hortofrutícolas e plantas ornamentais. Numa área de cinco mil hectares, em Odemira, Sines e Comporta, deverão nascer estufas equipadas para produzir 500 mil toneladas anuais de legumes, frutas e flores, no valor de €250 milhões. Com a subida do gás natural e a falta de água a gerar uma crise aguda na produção europeia de legumes, concentrada na Holanda e na região espanhola de Almeria, Portugal é visto como a solução para o risco de a Europa «ficar sem legumes»."

Expresso, 26/11/2005

A primeira coisa que me veio à ideia depois de ter lido esta notícia foi a Odefruta, o logrado negócio de fruta e legumes de “alta qualidade” encabeçado por Thierry Roussel, um projecto que nos finais dos anos oitenta fora apresentado como o futuro da agricultura portuguesa, visando a produção de hortícolas para exportação e o desenvolvimento de uma das zonas mais pobres do país. Era uma empresa apoiada e subsidiada na altura pelo governo Português, Caixa Geral de Depositos e União Europeia, localizada no Brejão, a sul da Zambujeira do Mar, com 550 hectares de agricultura intensiva em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Após falência por má gestão em 1994, deixou para a posteridade dívidas à União Europeia, banca, produtores, empregados e danos ambientais elevados. Este modelo de exploração agrícola não era novo em Portugal, tendo alguns casos de sucesso, como a Vitacress Salads (ver artigo no Público) e a Frupor.


Campo de Dalías, Almeria, Espanha | foto de earthobservatory.nasa.gov


Estufas, Almeria, Espanha | Foto Marc Alex, PIG, AFP,Paris.

Almeria, antes uma das zonas mais pobres e desérticas de Espanha, é agora o Eldorado da agricultura intensiva, tornando viável que se venda fora de época nos supermercados do norte da Europa, a preços bastante acessíveis, tomates, pimentos e alfaces, entre outros. É um imenso mar de plástico, visível de satélites em órbita, num total de 349.000 quilómetros quadrados. O negócio traz dinheiro para a região, mas também problemas. O impacto visual é um deles, mais preocupante é a poluição causada pelos desperdícios da actividade agrícola, o consumo de água nas explorações, que fez com que o Governo espanhol considerasse o desvio do caudal do Ebro e a construção de mais de setenta barragens e um pipeline com 1.000 quilometrós de comprimento, e recentemente, uma unidade de dessalinização na costa mediterrânica. Outro problema é a infiltracao da água do mar (em algumas zonas a salinidade e tão elevada que não é possível o cultivo de certas espécies) e o uso intensivo de quimicos (boa parte desta culturas são feitas em perlite, um médio inerte sem nutrientes disponíveis para as plantas) e pesticidas, que passam para os lençóis freáticos e solo, sendo alguns susceptíveis de provocar graves problemas de saúde. As estufas, essas, continuam em expansão, agora para os lados de Granada.


Linha de producao de ornamentais em potes de fibra de coco, Holanda.

Na Holanda, existem sistemas de agricultura intensiva desde o fim da II Guerra, e são o terceiro maior exportador de produtos hortícolas do planeta. As estufas, omnipresentes, fazem parte da paisagem tal como os polders e os campos de tulipas. Os custos de produção são mais altos do que em Espanha, por causa do clima do norte da Europa (as estufas necessitam de aquecimento), dos impostos e da mão de obra. Mas a maior diferenca entre a Holanda e a Espanha está no ordenamento do território e na legislação. As explorações são ordenadas, quem polui ou contamina o ambiente paga caro, sendo fiscalizados frequentemente, e há um esforco concertado para minimizar o impacto ambiental da indústria. Um bom exemplo são os vasos para produção de ornamentais para o mercado paisagista interno Holandês. Há uns anos eram de plástico, ainda são utilizados em boa parte do mundo, mas não são reciclaveis. O Governo Holandês retirou-os do mercado e foram substituidos por vasos de fibra de coco, biodegradáveis e produzidos de forma sustentável em paises em vias de desenvolvimento, como o Sri Lanka.

Concluindo, espero que o modelo que se vai implementar na costa alentejana não seja o da "terra queimada" que é a norma em Almeria. O ideal seria em modo de produção biológico, um mercado em franca expansão na União Europeia, mas se calhar é pedir demais. E já agora, que se dê alguma coisa de volta às populações locais. Não é só dar sem receber.

quarta-feira, novembro 23, 2005

23 de Novembro - Dia da Floresta Autóctone


Sobreiro, Quercus suber (Fagaceae)


Ciberia | Quercus | Fapas

Stourhead Reloaded







Mais fotos deste jardim maravilhoso, do qual já tinha falado aqui.

Planta do mês - XIX



Crinodendron hookerianum - Elaeocarpaceae


Arbusto perene originário do Chile, de crescimento médio até seis metros de altura e cinco de largura. Tem folhagem verde escura e floresce de Maio a Julho, com flores semelhantes a lanternas de cor vermelha penduradas nos ramos, que se formam na planta durante o Outono. Prefere sombra parcial e solos ácidos com alguma retenção de humidade no Verão. Propaga-se por estacas.

terça-feira, novembro 22, 2005

Cores de Outono - IV



Euonymus 'Red Chief' (Celastraceae)



Pinus bungeana (Pinaceae)



Melianthus major (Melianthaceae)

segunda-feira, novembro 21, 2005

HORTVS IMAGO II


Georges Braque (1882-1963), l'Estaque, vue depuis l'hôtel Mistral
Colecção privada, Nova Iorque.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Na rede:

Planta do mês - XVIII



Doryanthes excelsa - Doryanthaceae


Planta herbácea perene originária do este da Austrália, com folhagem em roseta e folhas até 2.5m de comprimento. Floresce no topo de um caule que se forma do centro da planta no Outono e Inverno no hemisfério Norte, e que pode ir até aos cinco metros de altura, a cor das flores varia de vermelho a rosa escuro. Prefere solos bem drenados e tem resistência a períodos prolongados de seca. Tolera geadas fracas, mas as flores podem ser danificadas. Propaga-se por sementes ou divisão.

quarta-feira, novembro 16, 2005

New Perennial Movement


Piet Oudolf Borders, Wisley.


O New Perennial Movement iniciou-se na primeira década do século XX, com Karl Foerster na Alemanha e William Robinson no Reino Unido. De maneira diferente, foram percursores da ideia de colocar a "planta-certa-no-sitio-certo", inspirando-se na natureza não só por motivos estéticos mas também para harmonizar espécies com preferências pelo mesmo tipo de condições em cultivo. Na actualidade, Beth Chatto e Christopher Lloyd continuam a mesma filosofia nos últimos 40 anos em Inglaterra, e desde os anos 70, Wolfgang Oehme e James van Sweden com a criação nos Estados Unidos do New American Garden , Ernst Pagels com o seu trabalho de pesquisa e hibridização de herbáceas na Alemanha e a dupla Henk Gerritsen-Anton Schlepers e Piet Oudolf na Holanda, sendo este último a personagem mais visível do movimento, colaborando com arquitectos como Frank Gehry, e com trabalhos na Europa e Estados Unidos dos quais de destacam as Piet Oudolf Borders em Wisley, um jardim de inspiração natural em Pensthorpe, Norfolk, e os Gardens of Rememberance em Nova Iorque.



Polygonatum x biflorum, Smilacina stellata e Myosotis spp., Beth Chatto Gardens.


Canteiro subtropical de Christopher Lloyd, Great Dixter.


O estilo único do New Perennial Movement foge à norma do que se entende como jardinagem ou mesmo plantas de jardim – caracterizando-se numa mistura de diversas especies herbáceas entrelaçadas com gramineas delicadas um tanto silvestres dispostas informalmente, semelhantes a paisagens que se podem contemplar em prados e pradarias do hemisfério Norte. Importantes são também as flores, não sendo o principal motivo de interesse a flor em si mas a sua forma, e a silhueta das plantas. Para Piet Oudolf, o ciclo que estas plantas iniciam e completam cada ano, dos rebentos até à floração e morte, é igualmente importante: “Dying in an interesting way is just as important as living”, disse. Particularmente as formas das sementes e dos ramos secos, que por hábito os jardineiros se apressam a cortar no Outono, agradáveis esteticamente nos dias de geada do fim do Outono em diante e tendo utilidade para a vida selvagem, como provisao de sementes para aves no Inverno.
"If the structure is right, the garden works - it doesn't matter what colours you use". No seu método, agrupa as flores por grupos em globos e botões, plumas, torres, margaridas, umbelíferas e cortinas ou véus – plantas que permitem que se veja através, como Thalictrum delavayi ‘Hewitt's Double’, Foeniculum vulgare ‘Bronze Giant’ ou Stipa tenuissima, dando profundidade ao conjunto e permitindo que a luz e o movimento participem na composição.



Sorghastrum nutans 'Sioux Blue' e Gaura lindheimeri.


Novas introduções, Orchard Dene Nursery natural planting workshop 09/2004.


Outras metas deste movimento são a baixa manutenção destes jardins; não se encoraja a irrigação a menos que seja realmente necessária, ou seja, as espécies escolhidas foram-no por se adaptarem bem às condições oferecidas; são cortados até à raiz uma vez por ano no fim de Janeiro ou início de Fevereiro para dar espaço às plantas para se regenerarem na Primavera; a harmonia com a natureza e inexistência de químicos - “Plants that can't live without the use of chemical fertilizers or pesticides don't belong in my garden”, diz Henk Gerritsen.

Hardcopy

O Terraforma foi Blogue Do Dia na edição impressa do Diário de Notícias de 12/11/2005!
Via Travessa Larga (Obrigado, Zé) ;)

segunda-feira, novembro 07, 2005

Henri Fernand Cayeux

Horticultor

Diplomado pela Escola Nacional de Horticultura de Versailles, foi Subchefe do Jardin des Plantes, anexo ao Museu Nacional de História Natural de Paris. Antes de ser contractado para substituir Daveau em Lisboa como Jardineiro-Chefe no então Jardim Botânico de Lisboa, exercia as funções de Director das culturas em Pontchartrain.
A actividade de Cayeux, de 1892 a 1909, incidiu priotariamente no embelezamento do espaço existente, mediante a introdução, cultivo e hibridização de plantas, algumas de grande valor ornamental, tais como a Dombeya x cayeuxii, ainda presente no Jardim, e a Rosa ‘Belle Portugaise’.



Rosa 'Belle Portugaise' (Rosaceae) | Cayeux 1903



Dombeya x cayeuxii (Sterculiaceae) | Cayeux 1897


Em 1894, iniciou a cultura de Chrysanthemum de capítulos grandes e deu início à realização de exposições anuais destas plantas na estufa do Jardim Botânico, repetindo-as até 1898. Introduziu em Portugal as Dahlias Cactos , promovendo uma exposição destas plantas, em 1899. Enquanto permaneceu em Portugal, Cayeux foi encarregado de dirigir e supevisionar culturas e plantações em Lisboa e na província. Prestou serviços nas quintas e jardins do conde de Burnay, de Luís Sommer e de Henrique de Mendonça.
Deve-se a ele também os híbridos de Rosa gigantea:
‘Étoile de Portugal’, R. 'Amateur Lopes', R.‘Lusitânia’ e R.‘Palmira Feijão’, plantas raras sobre as quais tenho tentado obter mais informação para adquirir exemplares, mas sem sucesso até à data. Continuou o seu trabalho de hibridização em França com outros géneros, tais como Hydrangea e Iris, criando várias cultivares a que lhe foram atribuída a sua introdução em Horticultura.

domingo, novembro 06, 2005

HORTVS IMAGO I


Hieronymus Bosch (1450?-1516)
Pormenor de O Jardim das Delícias, Museu do Prado, Madrid.


A árvore do lado esquerdo sempre me intrigou.
Será um Dragoeiro (Dracaena draco)?

sábado, novembro 05, 2005

Linhas abandonadas

Depois de ter lido este post no Ondas, recordei-me de um jardim existente e de um outro ainda em fase de projecto.


Promenade Plantée | foto de promenade-plantee.org

A Promenade Plantée, em Paris, foi construída em 1988 numa antiga linha férrea que atravessa o 12è Arrondissement, desactivada em 1969. Partindo da Bastille, perto do centro da cidade, até ao Bois de Vicenne, é ladeada de canteiros estreitos e plantada com árvores e arbustos, que proporcionam vistas invulgares dos edifícios circundantes e a quem passeia acima do bulício da cidade. Nas arcadas, o Viaduc des Arts, abriga lojas e ateliers diversos.


The High Line | foto de nyc-architecture.com


The High Line | foto de thehighline.org

Em Nova Iorque, a High Line, situada na zona oeste da cidade, foi construída em 1930 para acabar com os problemas causados pela linha então existente na 10th Avenue ou “Death Avenue”, assim baptizada pelo número de acidentes ocorridos entre trânsito, peões e comboios de carga. A linha foi desenhada para atravessar edificios e não colidir com o traçado das ruas, eliminar passagens de nível existentes e dando mais 16 hectares ao Riverside Park, ligando assim o porto directamente as fábricas e armazéns em Nova Iorque e Albany. Com o aumento dos transportes rodoviários nos anos 50, a linha entrou em declínio,tendo alguma secções sido demolidas para dar lugar a edifícios nos anos 60, deixando definitivamente de ser usada para o tráfego ferroviário nos anos 80. Desde o seu abandono e vedada aos habitantes, a natureza foi tomando conta do espaço existente, dando um ar surreal mas agradável a este bairro nova-iorquino, com prados e floresta a crescer acima das ruas, entre os edificios. Muito se discutiu sobre o seu futuro, tendo quase sido demolida na sua totalidade, mas em 2001, os Friends of the High Line (FHL) propuseram a sua preservação como espaço de interesse público, apresentando um estudo sobre a viabilidade de se converter numa zona verde. Depois de se terem garantido a sua continuidade e fundos para a sua execução, em conjunto com o Estado de Nova Iorque, foi aberto um concurso para escolher a equipa que vai conceber o projecto de reconversão desta área singular da “Big Apple”.

terça-feira, novembro 01, 2005

Novembro 2005

Samhain, o primeiro dia do Inverno.
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